A adolescência é uma fase de transição marcada por intensas transformações corporais, cerebrais, cognitivas, emocionais e de ordem social. A série britânica “Adolescência”, lançada pela Netflix, traz uma abordagem realista e sensível desse período da vida ao
contar a história de Jamie Miller, um garoto de 13 acusado de assassinar uma colega de escola a facadas. Mais do que um enredo trágico, a produção retrata os desafios enfrentados pelos jovens na atualidade, abordando temas como afastamento familiar, identificação com grupos, bullying, impactos das redes sociais e atitudes de ódio contra as mulheres.
Psicóloga e professora do curso de Psicologia da Universidade Salvador (UNIFACS), Tiara Melo explica que os processos envolvidos no desenvolvimento cerebral influenciam nos comportamentos e relações dos adolescentes. “Nesta etapa, o córtex pré-frontal, região
que regula o controle inibitório, o filtro, a capacidade de avaliação de riscos e de tomada de decisões, está em formação. Somado a isso, existe a busca por identidade e pertencimento social, o que os tornam ainda mais vulneráveis às influências positivas e negativas do seu meio”, afirma.
Além disso, a profissional ressalta que o bullying, a exposição a ambientes violentos e os problemas familiares também são fatores de risco para o envolvimento em atos infracionais, como o homicídio exposto na série. Situações de negligência, abuso e de falta
de suporte emocional também geram impactos significativos, resultando inclusive na inserção em grupos que transgridem ou adotam estratégias não convencionais para lidar com as próprias dores.
“Várias dessas questões são representadas na série, a exemplo das dificuldades para lidar com as consequências relacionadas aos discursos propagados pelos chamados “celibatários involuntários” (incels), por homens que acreditam ter entendido as verdades do mundo (redpills) e pela teoria 80/20. Esses extremos alimentam o discurso da masculinidade, algo que acaba refletindo na construção da identidade do adolescente”, pontua.
Baseada em teoria aplicada na área de economia, conhecida como Princípio de Pareto, a teoria citada em “Adolescência” alega que 80% das mulheres desejam somente os 20% dos homens mais atraentes, enquanto os demais são rejeitados ou ignorados.
Delinquência juvenil
A minissérie, exibida em quatro capítulos, também traz à tona a importância do autocontrole. Uma vez que na adolescência o senso de autorregulação e respeito aos próprios limites ainda está em construção, a procura por aceitação e as pressões impostas pelas redes sociais pode levar a caminhos destrutivos.
“Embora possam compreender as regras sociais, a capacidade de avaliar plenamente as consequências dos seus atos ainda está em consolidação. Estudos da psicologia do desenvolvimento apontam que a imaturidade pode conduzir a decisões inadequadas. É como se houvesse um rebaixamento da cognição, que é o poder de pensar e refletir mesmo diante do aumento das emoções”, diz a professora da UNIFACS.
Em razão da complexidade da fase, ela acredita que produções como “Adolescência” não só contribuem para debates sobre delinquência juvenil, mas também provocam reflexões que esclarecem os atuais dilemas da juventude. “Sabemos que a mídia pode contribuir para criação de estereótipos e preconceitos. Por isso, a reprodução em massa de um determinado assunto precisa ter um embasamento crítico, responsável, acompanhado de debates e de posicionamentos profissionais. Quando uma produção aborda questões delicadas com densidade e qualidade, abre-se espaço para enxergar diferentes perspectivas, a exemplo do uso excessivo de telas e o distanciamento dos pais na criação dos filhos”, comenta.
Olhar coletivo
Na visão de Tiara Melo, é possível evitar comportamentos transgressores e minimizar os fatores que evidenciam a vulnerabilidade dos adolescentes a partir de abordagens que alinham pais, escolas e profissionais da saúde. O espaço de ensino e aprendizagem pode
atuar no acolhimento, em dimensões socioafetivas e na formação dos indivíduos, enquanto os psicólogos trabalham na identificação precoce de riscos e na promoção da saúde emocional. Cabe aos pais ou responsáveis prezar pela construção de um sólido vínculo afetivo.
“Costumo dizer que a adolescência é um momento de resgate, pois representa uma oportunidade de rever a comunicação, as trocas afetivas e tudo que não foi feito ao longo da infância. Os pais têm uma segunda chance para criar uma relação segura, facilitar a nomeação das emoções, refletir criticamente sobre a educação pautada na ameaça de punição e adotar uma postura de conscientização, com falas no que diz respeito a motivações e escolhas”, conclui.
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