Saúde

Adotar hábitos saudáveis a partir dos 40 anos pode adiar sintomas do Alzheimer

Estudos indicam que estilo de vida influencia diretamente a saúde cerebral e pode prevenir ou postergar demências.

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Foto: Paulo Tavares / Agência Brasília

Cuidar da saúde física, mental e social ao longo da vida pode ser decisivo para o futuro da memória. Segundo as evidências científicas disponíveis, cerca de 40% dos casos de demência estão associados a fatores de risco modificáveis, como sedentarismo, hipertensão, obesidade, depressão e isolamento social. Quanto mais cedo esses fatores forem enfrentados — idealmente a partir da meia-idade ou antes —, maiores são as chances de proteger o cérebro e adiar o aparecimento de doenças como o Alzheimer.

Embora os primeiros sinais clínicos da doença apareçam, em geral, após os 65 anos, especialistas apontam que sua fase pré-sintomática pode se instalar até duas décadas antes. Por isso, quanto mais cedo forem adotadas práticas saudáveis, maiores as chances de proteger o cérebro e evitar o Alzheimer.

No Brasil, segundo dados atualizados do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 1,2 milhão de pessoas vivem com Alzheimer, número que pode triplicar até 2050 devido ao envelhecimento populacional. O Alzheimer é a forma mais comum de demência, caracterizada pela perda de memória, alterações cognitivas e, nos estágios mais avançados, comprometimentos funcionais e motores.

“A maioria das pessoas começa a se preocupar com o cérebro apenas quando uma pessoa próxima é acometida ou os primeiros esquecimentos aparecem. Mas o que a ciência vem mostrando é que o Alzheimer começa muito antes, de forma silenciosa, e pode ser influenciado por fatores que estão ao nosso alcance, fornecendo uma janela de oportunidade para sua prevenção”, afirma o neurologista Thiago Junqueira, doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP).

Diagnóstico e Prevenção do Alzheimer

Diagnóstico – Um dos principais desafios no Brasil é o diagnóstico precoce do Alzheimer. A escassez de especialistas e o alto custo dos exames limitam o acesso, o que faz com que 80% dos casos de demência não sejam diagnosticados, segundo o Relatório Nacional sobre Demências (RENADE). Um estudo apresentado na Conferência Internacional da Associação de Alzheimer, nos EUA, apontou que um exame de sangue de alta precisão, disponível ainda apenas na rede particular no Brasil, pode facilitar a triagem na atenção primária, com 91% de acurácia, superando os índices de acerto de médicos generalistas (61%) e até de especialistas (73%). O exame está em discussão acerca de sua validade e aplicabilidade aqui no Brasil.

Estilo de vida e saúde cerebral

A Medicina do Estilo de Vida, apontada pelo neurologista Thiago Junqueira como a melhor opção para prevenir as doenças crônicas não transmissíveis, propõe uma abordagem integrada baseada em seis pilares: alimentação majoritariamente baseada em vegetais, prática regular de atividade física, sono reparador, manejo do estresse, conexões sociais significativas e redução da exposição a substâncias nocivas, como álcool e tabaco. Esses pilares se alinham aos 12 fatores de risco modificáveis para demência segundo a conceituada Comissão da The Lancet sobre Prevenção, Intervenção e Cuidados com a Demência, que também incluem baixa escolaridade, perda auditiva não tratada e poluição atmosférica.

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Neurologista Dr Thiago Junqueira | Foto: Divulgação

“O cérebro é um órgão plástico, ou seja, capaz de se adaptar e se renovar ao longo da vida. Isso significa que temos margem de ação para fortalecer circuitos cerebrais e proteger áreas vulneráveis, como o hipocampo, desde que adotemos rotinas mais saudáveis”, destaca o Dr. Junqueira. Ele lembra que sedentarismo, hipertensão, obesidade e isolamento social são fatores de risco importantes e evitáveis.

Nutrição e Atividade Física

Nutrição e movimento – Entre os pilares, a alimentação tem papel central. Dietas baseadas em vegetais, azeite de oliva, peixes e frutas secas, como a chamada “dieta MIND” — uma combinação das dietas mediterrânea e DASH — têm demonstrado eficácia na redução do declínio cognitivo. O exercício físico, por sua vez, aumenta a oxigenação do cérebro, melhora a neuroplasticidade e reduz a inflamação crônica, um dos fatores associados ao envelhecimento cerebral acelerado.

Sono e estresse – Outro ponto fundamental destacado pelo pesquisador na área de Neurociência, Tecnologia e Saúde é o sono. Há evidências de que dormir mal pode favorecer o acúmulo de proteínas beta-amiloide, associadas ao Alzheimer. Já o gerenciamento do estresse e a manutenção de vínculos afetivos contribuem para o equilíbrio hormonal e o estímulo de áreas cerebrais ligadas à memória e ao bem-estar emocional.

O neurologista também lembra que é preciso encarar o envelhecimento como um processo ativo. “Prevenir o Alzheimer não é garantir que ele nunca irá acontecer, mas sim fazer tudo que está ao nosso alcance para adiá-lo e reduzir seus impactos. O cérebro responde aos nossos hábitos ao longo da vida”, conclui o Dr. Junqueira.

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